Lichenomphalia velutina (Quél.) Redhead, Lutzoni, Moncalvo & Vilgalys
| Nuno Figueiredo |
Lichenomphalia velutina – um fungo e um líquen ao mesmo tempo
Entre os pequenos e discretos cogumelos que crescem entre musgos, poucos são tão fascinantes como Lichenomphalia velutina. Esta espécie pertence a um grupo raro de fungos conhecidos como basidiolíquenes, organismos que combinam características de cogumelos e líquenes numa única entidade biológica.
O que é um basidiolíquen?
Ao contrário da grande maioria dos líquenes — que envolvem fungos do filo Ascomycota — Lichenomphalia velutina pertence aos Basidiomycota, o mesmo grupo que inclui a maioria dos cogumelos típicos.
Este organismo é uma simbiose entre duas entidades:
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o fungo (Lichenomphalia velutina)
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uma alga verde unicelular (fotobionte), geralmente do género Coccomyxa
A alga realiza fotossíntese e fornece açúcares ao fungo, enquanto o fungo fornece estrutura, proteção e acesso a água e minerais.
Esta associação forma uma estrutura liquénica basal chamada:
Botrydina (fase liquénica)
A Botrydina é visível como:
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pequenos grânulos ou massas verdes
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com aparência granular ou gelatinosa
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situados no solo, entre musgos
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frequentemente na base do pé do cogumelo
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Descrição macroscópica
Chapéu (pileus)
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diâmetro: aproximadamente 5–15 mm
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forma: inicialmente convexo, depois plano a deprimido
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margem frequentemente ondulada e irregular
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superfície seca, lisa a ligeiramente fibrilosa
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cor variável:
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castanho-claro
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bege-rosado
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castanho-acinzentado
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frequentemente com centro mais escuro
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A margem translúcida revela a estrutura das lamelas por transparência.
Lâminas
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bem espaçadas
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espessas e cerosas
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frequentemente decorrentes ou ligeiramente adnatas
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cor:
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creme
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bege claro
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rosado pálido
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Este aspecto ceroso é típico da família Hygrophoraceae.
Pé (estipe)
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comprimento: 10–30 mm
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espessura: 0,5–2 mm
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cilíndrico, frequentemente curvado
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superfície distintamente velutina (aveludada)
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cor castanho-avermelhada a castanho-escura
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base associada à Botrydina e micélio liquenizado
O epíteto velutina refere-se precisamente a esta textura aveludada.
Descrição microscópica
Esporos
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forma: elipsoidais a ligeiramente amigdaliformes
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dimensões observadas:
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(7.3) 7.3–8.7 × (3.6) 4–4.7 (5) µm
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média: 7.8 × 4.3 µm
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Q médio: 1.8
paredes finas, hialinos, lisos, não amiloides
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Estas dimensões estão dentro do intervalo típico da espécie.
Basídios
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basídios:
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1 esporo (unispórico)
- 2 esporos ( bispórico)
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Esta variabilidade é conhecida nesta espécie, embora basídios 4-espóricos também possam ocorrer.
Basídios com menos esporos frequentemente produzem esporos maiores.
Sistema hifal
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monomítico
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hifas hialinas, paredes finas
A ausência de ansas de anastomose é um carácter importante da família Hygrophoraceae.
Ecologia
Esta espécie cresce:
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entre musgos
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em solos ácidos ou neutros
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em locais húmidos
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frequentemente em: taludes, margens de trilhos, solos expostos, zonas montanhosas
Não cresce sobre madeira.
O crescimento está intimamente associado à presença do fotobionte liquénico.
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Ciclo de vida único
O ciclo de vida inclui duas fases visíveis:
Fase liquénica
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Botrydina presente
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associação fungo + alga
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persistente durante longos períodos
Fase fúngica
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produção de cogumelos
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função reprodutiva
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dispersão de esporos
Ambas coexistem no mesmo organismo.
Taxonomia e origem evolutiva
Classificação:
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Reino: Fungi
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Filo: Basidiomycota
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Classe: Agaricomycetes
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Ordem: Agaricales
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Família: Hygrophoraceae
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Género: Lichenomphalia
O género Lichenomphalia representa uma linhagem especializada de fungos agaricoides que evoluíram para formar líquenes.
É um exemplo extraordinário de evolução convergente com líquenes ascomicetos.
Distribuição e raridade
A espécie é conhecida na Europa, mas é considerada:
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pouco comum
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sub-registada
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facilmente ignorada devido ao tamanho pequeno
Na Península Ibérica existem poucos registos confirmados.
A presença confirmada com:
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Botrydina
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microscopia completa
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documentação fotográfica
torna este registo particularmente valioso.
Importância científica
Este registo documenta claramente:
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a fase liquénica
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a fase fúngica
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a associação simbiótica
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características microscópicas diagnósticas
Nuno Figueiredo Nuno Figueiredo
Conclusão
Lichenomphalia velutina é um exemplo extraordinário da complexidade das simbioses fúngicas. Representa simultaneamente um cogumelo e um líquen, demonstrando como as fronteiras entre categorias biológicas podem ser mais fluidas do que aparentam.
Este registo documenta claramente todas as características essenciais da espécie, incluindo a rara observação da estrutura liquénica associada.
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