Laetiporus sulphureus (Bull.) Murrill, 1920 

Nuno Figueiredo

O Laetiporus sulphureus é um dos fungos mais vistosos que podemos encontrar nas nossas florestas e parques e, pelo menos em Portugal, é muitas vezes um dos primeiros cogumelos a anunciar a chegada do outono. A partir dos finais de agosto e durante os meses de setembro e outubro, as suas grandes estruturas amarelas e alaranjadas começam a surgir nos troncos e ramos das árvores.

Forma grandes aglomerados de corpos frutíferos sobrepostos, com cores que vão do amarelo-vivo ao amarelo-alaranjado e ao laranja. O seu aspeto faz lembrar pequenas prateleiras ou leques empilhados uns sobre os outros.

O nome Laetiporus está relacionado com a aparência porosa do fungo, enquanto sulphureus vem do latim e significa “amarelo-enxofre”, uma referência à sua coloração característica. O nome original da espécie foi Boletus sulphureus, descrito por Pierre Bulliard em 1789, tendo a combinação atualmente aceite sido publicada por William Alphonso Murrill em 1920.

Nuno Figueiredo

 Será correto chamar a todos os Laetiporus de sulphureus?

Durante muito tempo, praticamente todos os Laetiporus com os característicos tons amarelos e alaranjados eram identificados como Laetiporus sulphureus. Mas será que todos eles pertencem realmente à mesma espécie?

Nas últimas décadas, os estudos genéticos começaram a revelar uma realidade bastante diferente. Aquilo que durante muito tempo foi tratado como uma única espécie revelou-se um complexo de espécies, ou seja, um conjunto de espécies muito próximas entre si e que podem ser extremamente difíceis de distinguir apenas pela aparência.

A análise do ADN mostrou que os exemplares tradicionalmente identificados como Laetiporus sulphureus pertencem a várias linhagens geneticamente distintas. Algumas destas linhagens apresentam também diferenças na distribuição geográfica e nas árvores que utilizam como hospedeiro.

Esta questão torna-se ainda mais interessante quando olhamos para os nossos próprios registos em Portugal. Embora o eucalipto pareça ser um dos hospedeiros onde encontramos esta espécie com maior frequência, temos também observado exemplares associados a Populus e Castanea sativa. E, entre estes registos, encontramos diferenças na forma, na espessura e no contorno das frutificações, bem como na intensidade das cores.

Estas diferenças não permitem, por si só, afirmar que estamos perante espécies diferentes. No entanto, são precisamente o tipo de variação que torna interessante o estudo do complexo Laetiporus sulphureus e que nos lembra que nem sempre a aparência de um fungo conta toda a sua história.

Exemplar observado num cepo de Populus sp.
Nuno Figueiredo


Exemplar em Eucalyptus sp. 
Nuno Figueiredo
Exemplar em Castanea sativa
Nuno Figueiredo






Na Europa, uma das espécies que foi reconhecida dentro deste grupo é o Laetiporus montanus, que aparece principalmente associado a coníferas. Visualmente, pode ser muito semelhante ao L. sulphureus, tornando a distinção difícil apenas através das características macroscópicas.

Mas a história não termina aqui. Os estudos moleculares revelaram ainda outras linhagens dentro deste complexo cujo estatuto como espécies independentes não está completamente esclarecido.

Assim, quando encontramos um destes magníficos fungos amarelos, nem sempre é possível afirmar apenas pela aparência que estamos perante Laetiporus sulphureus. A árvore onde cresce, a localização geográfica e, em alguns casos, o estudo microscópico e a análise do ADN podem ser necessários para chegar a uma identificação segura.

É um excelente exemplo de como a investigação moderna tem mostrado que, no mundo dos fungos, espécies diferentes podem ser quase impossíveis de distinguir à vista desarmada.


Nuno Figueiredo

O nome “galinha-do-bosque”

O nome “galinha-do-bosque” tornou-se bastante popular em Portugal nos últimos tempos, sobretudo através das redes sociais e dos grupos dedicados aos cogumelos. Trata-se da tradução/adaptação do conhecido nome inglês “Chicken of the Woods”, utilizado para Laetiporus sulphureus devido à sua textura carnuda e à semelhança que, depois de cozinhado, alguns encontram com a carne de frango.

Embora a designação seja hoje cada vez mais conhecida entre os apreciadores de cogumelos, não parece tratar-se de um nome popular tradicional português, mas antes de uma designação que ganhou força com a divulgação moderna desta espécie.



 Descrição macroscópica

Os corpos frutíferos são geralmente sésseis, ou seja, não possuem um verdadeiro pé, embora por vezes apresentem uma base lateral muito curta. Têm forma semicircular, de leque ou de prateleira, e desenvolvem-se normalmente em grupos muito densos e sobrepostos.

A superfície superior é lisa a ligeiramente rugosa ou ondulada e apresenta uma coloração muito característica, que pode variar entre o amarelo-enxofre, amarelo-vivo, amarelo-alaranjado e laranja. A margem é geralmente mais clara, espessa, arredondada e bastante ondulada.

Os exemplares jovens são particularmente vistosos e apresentam cores muito intensas. Com a idade, vão perdendo a coloração e tornam-se mais pálidos, secos e duros.

A face inferior é formada por numerosos poros muito pequenos, inicialmente de cor amarelo-enxofre ou amarelo-vivo. Os poros são arredondados a ligeiramente angulosos e encontram-se geralmente em cerca de 2 a 5 poros por milímetro. A camada de tubos é curta e não se separa facilmente da carne.

A carne é macia, suculenta e relativamente frágil quando o fungo é jovem, tornando-se progressivamente mais dura, seca e quebradiça com a idade. A cor é geralmente branca, creme ou amarelada.


Nuno Figueiredo
Nuno Figueiredo



Características microscópicas

Os esporos são lisos, hialinos e de forma elipsoidal a ovoide, medindo aproximadamente 5–7 × 4–5 µm. O sistema hifal é dimítico, constituído por hifas generativas e hifas de ligação. Os basídios são claviformes e geralmente produzem quatro esporos.



Nuno Figueiredo

Nuno Figueiredo








Comestibilidade

O Laetiporus sulphureus é considerado comestível quando jovem e é bastante apreciado em várias regiões pela sua textura carnuda e sabor suave. Os exemplares jovens são macios e tenros, mas à medida que envelhecem tornam-se progressivamente mais secos, fibrosos e difíceis de mastigar, deixando de ter interesse gastronómico.

Na cozinha pode ser preparado de várias formas, sendo normalmente cortado em pedaços e bem cozinhado. A sua textura firme e carnuda faz com que seja utilizado em pratos onde se procura uma consistência semelhante à de alguns alimentos de origem animal.

Não deve ser consumido cru ou mal cozinhado. Embora seja considerado uma espécie comestível, estão descritos casos de perturbações gastrointestinais após o seu consumo, e algumas pessoas podem apresentar uma maior sensibilidade. Os sintomas descritos incluem sobretudo problemas digestivos, embora reacções mais intensas tenham sido relatadas muito raramente.

Como acontece com qualquer cogumelo silvestre, deve ser consumido apenas quando a identificação for segura e os exemplares estiverem em boas condições. Os exemplares muito velhos, secos ou deteriorados não são adequados para consumo.

Fase de crescimento 
Nuno Figueiredo.


Curiodidade: 

Laetiporus sulphureus teve uma pequena participação no cinema.

Este fungo pode ser visto a crescer nos troncos das árvores em várias cenas do filme Robin Hood: Príncipe dos ladrões, realizado em 1991 e protagonizado por Kevin Costner. As cenas da floresta foram filmadas em vários locais de Inglaterra, incluindo Burnham Beeches, uma antiga floresta de faias em Buckinghamshire.

Os grandes aglomerados amarelo-alaranjados que aparecem nos troncos não são adereços: são fungos do género Laetiporus, conhecidos em inglês como “Chicken of the Woods”.

É uma curiosidade particularmente interessante porque o filme procura recriar uma paisagem medieval inglesa e estes fungos são precisamente parte da biodiversidade natural das árvores antigas.





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