Caloboletus radicans (Pers.) Vizzini

 Um dos primeiros boletáceos a surgir nas nossas florestas é o Caloboletus radicans

À primeira vista, pode parecer um pouco monótono, com o seu chapéu esbranquiçado ou bege, por vezes irregular e rachado. Mas basta levantá-lo para descobrirmos uma magnífica superfície de poros amarelos, que contrasta com o aspeto discreto do chapéu e dá ao cogumelo uma beleza muito particular.

Uma particularidade que acho interessante nesta espécie é a dificuldade em acertar no momento certo para a encontrar. Já me aconteceu várias vezes procurar o Caloboletus radicans sem sucesso, mesmo sabendo que as primeiras chuvas de verão já tinham chegado.

Esta imprevisibilidade torna a procura ainda mais interessante. É preciso conhecer os locais, observar as condições do terreno e, sobretudo, ter alguma paciência. Porque quando finalmente aparece, muitas vezes encontramos vários exemplares onde, dias antes, não havia sinal deles.

Nuno Figueiredo

História taxonómica

A história taxonómica do Caloboletus radicans é longa e bastante interessante. A espécie foi descrita pela primeira vez em 1801, pelo micólogo holandês Christiaan Hendrik Persoon, que a colocou no género Boletus, atribuindo-lhe o nome Boletus radicans.

Com o desenvolvimento da microscopia e, mais tarde, dos estudos baseados no DNA, começou a perceber-se que era necessário reorganizar este grande grupo. Os estudos filogenéticos mostraram que alguns destes boletos pertenciam a linhagens distintas e, em 2014, Alfredo Vizzini criou o género Caloboletus.

Foi então que Boletus radicans passou para o seu atual nome: Caloboletus radicans (Pers.) Vizzini.

O epíteto específico radicans vem do latim e significa “que cria raízes” ou “enraizante”.

Persoon escolheu este nome em 1801, quando descreveu a espécie como Boletus radicans. A escolha está relacionada com a forma como o pé se prolonga no solo, podendo apresentar uma base afilada e profundamente enterrada, dando a impressão de que o cogumelo está a criar uma pequena raiz.

Nuno Figueiredo
Nuno Figueiredo



Descrição macroscópica

Chapéu: carnudo, inicialmente hemisférico, tornando-se convexo e irregular. A cutícula é seca, de cor branco-acinzentada, creme ou bege, por vezes com a superfície fissurada.

Poros: pequenos, arredondados a angulosos, de um bonito amarelo-limão a amarelo-vivo, azulando quando pressionados.

Pé: robusto, geralmente amarelo na parte superior, podendo apresentar um retículo fino. A base é frequentemente afilada e radicante, penetrando profundamente no solo.

Carne: branca a amarelo-pálida, azulando rapidamente ao corte, sobretudo no chapéu e na parte superior do pé. O sabor é muito amargo e desagradável.

Odor: pouco pronunciado, por vezes ligeiramente ácido.

Nuno Figueiredo


Descrição microscópica

Esporos: lisos, elipsoidais a fusiformes, de cor amarelo-olivácea, medindo aproximadamente 11,5–14 × 4–5,5 μm.

Basídios: claviformes, geralmente tetraspóricos.

Cistídios: fusiformes a lageniformes, presentes no himénio.

Pileipellis: constituída por hifas dispostas numa estrutura do tipo tricoderme, com elementos cilíndricos a ligeiramente claviformes.

Esporada: castanho-olivácea.



Nuno Figueiredo


Comestibilidade

Não comestível.

O Caloboletus radicans distingue-se pelo seu sabor extremamente amargo, razão suficiente para não ter qualquer interesse gastronómico. Existem também registos de perturbações gastrointestinais após o seu consumo, pelo que não devemos considerar a espécie apenas como “um boleto amargo”, mas sim como uma espécie a evitar.

Espécies semelhantes

A espécie que mais facilmente podemos confundir é o Caloboletus calopus. Também possui chapéu claro, poros amarelos e carne amarga, mas o pé apresenta tons vermelhos muito mais evidentes, sobretudo na metade inferior, enquanto em C. radicans é geralmente claro e com a base radicante.

Outro possível confusível é o Butyriboletus fechtneri, que pode apresentar um chapéu igualmente claro e poros amarelos. Aqui, uma das diferenças mais úteis é o sabor não amargo e a frequente presença de uma zona avermelhada no pé.

Assim, quando encontramos um boleto de chapéu claro, poros amarelos e carne que azula, a combinação de sabor muito amargo, pé claro e base radicante é particularmente importante para reconhecer Caloboletus radicans.



                                                                                                  Nuno Figueiredo





















                                                                    

E em Portugal, onde o podemos encontrar?



Caloboletus radicans está presente em Portugal, embora não pareça ser uma espécie particularmente comum.

É uma espécie ectomicorrízica, associada a várias árvores de folha larga, sobretudo carvalhos, mas também a outras espécies, entre elas o castanheiro (Castanea sativa).

No meu caso, curiosamente, todos os exemplares que encontrei até hoje estavam associados a castanheiros. Talvez por isso, quando penso nesta espécie, seja quase inevitável procurar primeiro debaixo deles.

É uma observação pessoal, naturalmente, mas que poderá ser interessante comparar com as experiências de outros micólogos e aficionados pelos cogumelos.





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